terça-feira, 28 de julho de 2009

CAETANO VELOSO

Há quem me conheça a fundo. Estes com a certeza absoluta sabem da minha segunda paixão (depois do V. de Moraes). Também sabem o quanto eu me debrucei à pesquisa, leitura, sobre o Tropicalismo.
Por mais que hoje pareça-e talvez esteja mesmo- um pouco perdido, um pouco global, Caetano Veloso foi no passado um dos que mais provocou e causou. Foram ele e seu grupo tropicalista odiados por quem fazia música engajada e 100% brasileira, mas também não se encaixava entre os mais conformados, da jovem guarda. Também foram perseguidos pela ditadura e exilados.
Caetano era irreverente, fazia performances loucas e corajosas nos palcos, uma até que influenciou o mais famoso integrante de Secos e Molhados, Ney Matogrosso, que viu o seu futuro modo de causar no cantor e compositor tropicalista vestido de mulher e dançando.
Foi após o exílio, a partir do disco Velô, de 1984, é possível reconhecer o registro do debate cultural pós-moderno, tanto na supremacia das questões raciais e das diferenças culturais, quanto nas cisões das opções sexuais, de gênero, de classe e principalmente do Terceiro Mundo, nas músicas de Caetano Veloso. O olhar pós-colonial, como resposta à modernidade, já havia sido dimensionado a partir das vanguardas artísticas brasileiras dos anos 60: Cinema Novo, Teatro Oficina e o Neo-Concretismo.
É do mesmo disco, Velô, uma das minhas músicas preferidas, "Podres Poderes", que representa o impasse da América Latina perante o seu caminho como continente novo e emancipado, uma América Latina católica que continua sendo submetida pelas grandes metrópoles do Atlântico Norte, mesmo se organizando em repúblicas, que quando voam mais alto são abatidas por golpes ditatoriais. Mesmo assim, apresentam novos signos renovadores e questionadores desta retórica social.

Podres Poderes- Caetano Veloso

Enquanto os homens exercem seus podres poderes, motos e fuscas avançam os sinais vermelhos e perdem os verdes. Somos uns boçais...!
Queria querer gritar setecentas mil vezes como são lindos, como são lindos os burgueses, e os japoneses. Mas tudo é muito mais!

Será que nunca faremos senão confirmar a incompetência da América católica que sempre precisará de ridículos tiranos?
Será, será que será, que será, que será. Será que essa minha estúpida retórica terá que soar, terá que se ouvir por mais zil anos?

Enquanto os homens exercem seus podres poderes, índios e padres e bichas, negros e mulheres, e adolescentes fazem o carnaval.
Queria querer cantar afinado com eles, silenciar em respeito ao seu transe num êxtase, ser indecente. Mas tudo é muito mau!

Ou então cada paisano e cada capataz, com sua burrice fará jorrar sangue demais, nos pantanais, nas cidades, caatingas e nos gerais.
Será que apenas os hermetismos pascoais, os tons e os mil tons, seus sons e seus dons geniais nos salvam, nos salvarão dessas trevas e nada mais?

Enquanto os homens exercem seus podres poderes, morrer e matar de fome, de raiva e de sede são tantas vezes gestos naturais.
Eu quero aproximar o meu cantar vagabundo daqueles que velam pela alegria do mundo, indo mais fundo, tins e bens e tais.

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